O sumiço do voo 19 colocou o Triângulo das Bermudas no mapa do imaginário popular. Em 5 de dezembro de 1945, cinco aviões da Marinha dos EUA decolaram de Fort Lauderdale para um treinamento simples. Pouco mais de uma hora depois, começaram os pedidos de socorro. Pilotos dizendo que não sabiam onde estavam, bússolas enlouquecidas, direção perdida. A frota seguiu rumos confusos até desaparecer no Atlântico. O avião de resgate enviado atrás deles também sumiu. Nada de destroços. Nada de corpos. Nada de respostas.

Histórias assim alimentaram a fama do Triângulo, uma área imaginária entre Miami, San Juan e Bermudas. Um pedaço grande do oceano, cheio de versões e exageros. A fronteira entre fato e lenda, ali, sempre foi borrada.

O sumiço do voo 19 ajudou a criar o mito moderno, mas os relatos são mais antigos. Colombo passou por ali em 1492 e anotou coisas estranhas no diário. Luzes à distância, bússolas se comportando fora do padrão. Nada que ele ligasse a mistério, só registros de navegação. Até Shakespeare acabou usando um naufrágio em Bermudas como inspiração para A Tempestade, muito antes de o nome Triângulo das Bermudas existir.

No século 20, vieram histórias ainda mais fortes. O cargueiro USS Cyclops desapareceu em 1918 com 300 pessoas a bordo e sem nenhum pedido de socorro. Décadas depois, duas embarcações da mesma família tiveram o mesmo destino. Em 1921, a escuna Carroll A. Deering foi encontrada vazia, comida servida na mesa e nenhum sinal da tripulação. Nos anos 40, dois aviões comerciais também sumiram sem deixar vestígios.

A expressão Triângulo das Bermudas só nasceu em 1964, criada pelo escritor Vincent Gaddis. Ele juntou casos espalhados por décadas e deu forma à tal área misteriosa. Também arriscou explicações: perturbações magnéticas, falhas atmosféricas e até um “buraco no céu”. O público abraçou a ideia e outros autores foram pelo mesmo caminho, alguns deles cruzando a fronteira para teorias mais fantasiosas, como pirâmides submersas e a cidade perdida de Atlântida emitindo energia no fundo do mar.

Enquanto isso, cientistas seguiam com os pés no chão. A NOAA, agência americana de oceanos e clima, lembra que a região é rota de furacões, tem águas rasas perto de ilhas e sofre com mudanças bruscas de tempo. Tudo isso cria armadilhas para quem navega sem previsão meteorológica moderna. É um caminho perigoso, não um portal sobrenatural.

Há também o fator humano. No caso do voo 19, documentos apontam mau tempo, falhas de navegação e até relatos de que o piloto líder já havia se perdido antes. O avião de resgate que sumiu era conhecido por pegar fogo no ar. Muitos detalhes foram omitidos ao longo do tempo para deixar a história mais saborosa.

Entre as teorias mais curiosas, aparece até o papo dos “peidos do oceano”: bolhas de metano que subiriam à superfície e poderiam desestabilizar embarcações. Cientistas dizem que a ideia é interessante, mas improvável e que isso não explicaria tripulações inteiras desaparecendo.

No fim das contas, as estatísticas mostram que o Triângulo das Bermudas não é mais perigoso do que qualquer outra área movimentada do oceano. O número de acidentes acompanha o fluxo de navios e aviões, nada fora do padrão.

E quem quiser ver o lugar de perto pode ir sem medo. Bermudas é um destino turístico popular, com museu dedicado ao tema, tours e até sorvete em formato de triângulo para embarcar no clima. As histórias continuam vivas, mas o mistério, ao que tudo indica, continua mais perto da imaginação do que da ciência.

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Jornalista com registro no MT desde 2022, atuando na área desde 2019. Produtor de eventos desde 1998 e desenvolvedor web desde 2007, com foco em WordPress e conteúdo digital. No Pista Livre, é responsável pela criação, edição e estratégia dos conteúdos.